Novo ‘Missão Impossível’ descarta cansaço da franquia


Por Alexandre Reis*

Roteiristas, diretores e produtores de Hollywood que aprenderam a reverdecer aquelas produções que se prolongam no formato de séries, evitando assim um cansaço da audiência, obtém sucesso de público e crítica. De forma mais inolvidável (ou traumática para parte dos fãs), isso aconteceu em Star Wars: Os Últimos Jedi e em Logan. E também é uma novidade interessante ˗ embora com um grau bem menor de força do que nos exemplos anteriores ˗ de Missão Impossível – Efeito Fallout, em cartaz nas salas de cinema de todo o país.

Claro que a fórmula adotada pelo roteirista e diretor Christopher Mcquarrie (que também ocupou as duas funções em Missão Impossível – Nação Secreta, do qual Efeito Fallout é uma continuação direta) contém os principais ingredientes que tornaram a franquia atraente, como as sequências cada vez mais inacreditáveis de ação, as máscaras ultramodernas, outros truques tecnológicos de espionagem e o humor. Mas o filme vai um pouco além do óbvio, revelando até mesmo um Ethan Hunt inseguro, dividido e repleto de dúvidas.

Exemplo disso é que aquele sorrisinho arrogante típico de Tom Cruise (ou de Ethan Hunt) aparece menos na tela em Efeito Fallout do que nos capítulos passados, principalmente após o segundo, de 2000, aquele desastre provocado por John Woo. Efeito Follout começa com um pesadelo do agente secreto, o que já demonstra a intenção do roteiro em mostrar que o herói que salvou o mundo algumas vezes tem medo e amarga insegurança sobre decisões tomadas no passado.

Mais do que nunca, para enfrentar novos e antigos adversários, Ethan Hunt vai precisar dos seus velhos e habilidosos amigos da IMF e também da agente secreta britânica Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), que divide o coração do mocinho com a ex-esposa dele, novamente interpretada por Michelle Monaghan. Entre os personagens que surgem estão Erica Sloane (Angela Bassett) e August Walker (Henry Cavill), ambos da CIA, agência que novamente se coloca no caminho de Ethan Hunt com seus métodos estilo Jack Bauer que entram em choque com aqueles praticados por Hunt.

Trama e fotografia – Na trama, a IMF enfrenta como ameaça uma turma chamada de “apóstolos”, seguidores do vilão Solomon Lane, o mesmo que comandava o “sindicato” em Nação Secreta. Para tanto, Ethan Hunt é obrigado a fazer uma parceria com August Walker, agente duplo da CIA interpretado por Henry Cavill, o novo Super-Homem (em mais uma atuação insossa). A partir daí acontecem reviravoltas, surpresas, piadas e sequencias de ação que prendem o espectador até o final, sempre associadas a uma trilha sonora instigante.

A fotografia é um dos pontos fortes do filme. Câmeras posicionadas em planos diversificados, acompanhando sequências de perseguição, chegam a provocar a sensação de vertigem, além de inserir, no contexto da produção, belíssimas imagens de monumentos históricos e naturais de locações “reais” (ou seja, que correspondem ao que diz o roteiro), como na França ou Inglaterra, ou “artificiais (que são, na verdade, de locais diferentes aos citados na película).

A filmagem em locações externas, em cidades do mundo inteiro, não chega a ser uma novidade para Missão Impossível, mas em Efeito Fallout isso é explorado de forma mais intensa por lentes frenéticas, planos diferenciados e exatos. O que casa perfeitamente com a estratégia do roteiro de não revelar antecipadamente os planos de Ethan Hunt e sua trupe antes que eles aconteçam, diferentemente dos outros episódios da franquia e até mesmo da série original de 1966 (sim, vem de longe a famosa frase “essa gravação se autodestruirá em cinco segundos”).

Dessa forma, Efeito Fallout oferece diversão garantida acima da média quando comparado aos episódios dois, três, quatro, cinco e seis de Missão Impossível protagonizados por Tom Cruise (e com certeza outros virão). Mas ainda torna insuperável o primeiro e mais tenso de todos, aquele 1996 dirigido por Brian De Palma.

*Alexandre Reis é jornalista