Fascinante, dolorosa e provocante: trajetória de Frida Kahlo ganha montagem baiana


Por Alexandre Reis

A história da pintora mexicana Frida Kahlo se tornou famosa no mundo inteiro após o filme homônimo de 2002, estrelado por Salma Hayek, naquela que é a maior interpretação da atriz no cinema até hoje. A trajetória dessa mulher polêmica, que ainda é capaz de incomodar a audiência mais conservadora que está na modinha nos tempos presentes, também já foi retratada nos palcos do mundo inteiro, inclusive no Brasil (recentemente o papel foi vivido pela atriz Leona Cavalli, conhecida por trabalhos na televisão). E agora chega ao teatro soteropolitano em uma versão genuinamente baiana e que vale a pena ser vista.

Escrito e dirigido por Fernando Santana, o espetáculo “Frida Kahlo” está em cartaz no Teatro Gregório de Mattos, na Praça Castro Alves. Quem interpreta o papel principal é a atriz Jane Santa Cruz (que trabalhou com Santana na peça “Sobre a pele”). Ela incorpora com vigor e talento uma Frida em permanente luta contra as dores de um corpo mutilado por tragédias físicas e de uma alma marcada pela impossibilidade de gerar filhos e por amores mal resolvidos.

Espetáculo Frida Kahlo está em cartaz no Teatro Gregório de Mattos (Foto: Divulgação)

É uma história que, mesmo se passando no início do século passado, permanece atual. Por isso, ela é contada e recontada pelo mundo, principalmente nos países latinos, sobretudo a partir da publicação do diário de Frida e da biografia da pintora publicada pela historiadora norte-americana Hayden Herrera – o livro, por sinal, deu origem ao filme de Salma Hayek.

Afinal, estamos tratando de uma mulher aparentemente frágil que almejada ser médica, mas teve poliomielite na infância, sofreu com as limitações de movimento depois de um grave acidente de trânsito, perdeu dedos e uma perna amputados, passou por três abortos naturais e que vivia a maior parte do tempo sobre a cama pintando autorretratos fitando um espelho no teto do quarto.

Apesar de todos esses obstáculos que fariam a maior parte das criaturas racionais passar o resto da vida com a cabeça no travesseiro, Frida se tornou uma das maiores pintoras latinas, foi capa da Vogue, festejada por artistas como Picasso e Marcel Duchamp e consagrada como a primeira pintora mexicana do século XX a ter um quadro no Museu do Louvre, em Paris. Alcançou esse reconhecimento pintando em cores vivas e traços cortantes a própria realidade dolorosa (como ela própria se via), em um conjunto de telas que pode ser classificado como biográfico.

Comunista e feminista

Frida, comunista por convicção política e feminista pela forma natural de agir, só viveu 47 anos (1903 a 1954), mas procurou exercer intensamente o direito à liberdade, inclusive sexual, estando à frente do seu tempo. O espetáculo revela esta Frida que a todo instante luta para superar as dores físicas e mentais, mas sem deixar de viver intensamente.

Alguns episódios marcantes da vida da artista não são mencionados, como as tentativas de suicídio ou a admiração incondicional pela Revolução Mexicana (e olha que ela só tinha 16 anos quando Pancho Villa, um dos líderes do movimento, foi assassinado, já no final do conflito que reivindicava a reforma agrária). Logo após a revolução, o México vira um caldeirão cultural e político, do qual Frida soube aproveitar, inclusive se casando com o Diego Rivera (interpretado por Daniel Calibã), considerado um dos maiores pintores mexicanos.

Texto denso

O texto denso e provocativo, com trechos de diálogos baseados no próprio diário de Frida, as interpretações sólidas e as soluções cênicas que dão um ritmo quase cinematográfico ao espetáculo superam as dificuldades de uma produção modesta. Alguns atores fazem mais de um papel em cena, a exemplo de Luiz Antônio Sena Júnior, que na maior parte do espetáculo é Leon Trótski, intelectual marxista que se exila no México (na casa de Frida e Diego) após ser perseguido por Josef Stalin na disputa pela liderança do comunismo na antiga União Soviética.

Trótski é apresentado a Frida por Diego, e ambos se tornam, além de debatedores de temas políticos, amantes. Ainda estão representadas na peça a irmã de Frida (interpretada por Silara Aguiar) e a cantora costarriquenha Chavela Vargas (vivida pela atriz e também cantora Mariana Borges). Aliás, dois dos mais belos momentos do espetáculo são protagonizados pelas atrizes que interpretam Frida e Chavela: um número musical mexicano cantado magistralmente por Mariana Borges para encantar a pintora e amante e uma cena de amor atrás de um pedaço de pano iluminado por uma luz vermelha que termina na cama.

A cama, por sinal, que é um objeto cênico sempre presente no palco, pois nela Frida passou boa parte da vida, amando, pintando e sofrendo com seus coletes ortopédicos. Assim como as roupas coloridas, penteado e adereços típicos de cabelo utilizados pela artista são reproduzidos no espetáculo, que deixa a desejar, no entanto, ao não mostrar de alguma forma a própria arte de Frida, que não é apresentada de nenhuma forma à plateia, deixando uma espécie de lacuna no cavalete.

Espetáculo “Frida Kahlo”
Quando: até 29 de julho
Sessões: sábados e domingos, às 19h (No dia 29/07 haverá sessão extra às 16h)
Onde: Teatro Gregório de Matos (Praça Castro Alves, s/n – Centro)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Vendas: no site Sympla ou na bilheteria do teatro
Classificação: 16 anos